sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A SPA, o bufo, o Zeca, e a GNR

Uma obrigação que existia em alguns bailes, era a de preencher uma lista fornecida pela Sociedade Portuguesa de Autores, mencionando os títulos das canções tocadas nessa actuação, bem como o nome de quem interpretava originalmente as ditas canções. Esse documento tinha o nome de "Direitos de Execução Mecânica".
A entidade contratante pagaria, para além da licença do espectáculo, os devidos direitos de autor à SPA, que por sua vez encaminharia aos respectivos autores.
Graças a este sistema, ainda recebi alguns dividendos, pois mesmo após a extinção do Iodo, nos formulários que tinha de preencher, colocava obviamente, as canções registadas na SPA, nas quais fui autor e co-autor.

Um episódio caricato mas que era marca dos tempos que corriam, passou-se no inicio dos anos 70, em que eu preenchera parte da folha com canções do Zeca Afonso, com a intenção nítida de favorecer o Artista, e eis que aparece no baile o "fiscal" ligado ao licenciamento de espectáculos.
Diziam que muitos dos "fiscais" desse tempo eram em simultâneo o cacique da terra, o informador da PIDE, representante da fiscalização, etc. Era um 3 em 1, pelo menos.
O fiscal pede a licença do espectáculo e a lista. Ao olhar para tanta canção do Zeca, pergunta quem escrevera o rol de canções. Eu - respondi. Ele - Zeca Afonso? Então toque lá  algumas destas musicas para eu ouvir, e se não as souber tocar, chama-se a GNR...
Não perdi a calma. Agarrei na viola e comecei a cantar de ouvido, o que podiam ser letras alusivas aos títulos dos temas escolhidos pelo bufo. Um dos temas " Vejam Bem", foi totalmente adulterado naquele momento tanto na letra como nos acordes.
Mas a minha suspeita batia certo. Estes tipos eram sempre incultos, duros de ouvido, tendo apenas poder. Em frente de toda a gente ali presente, o bufo não quis passar pela vergonha de assumir que não fazia a mínima ideia se eu estava a executar correctamente ou estava a inventar.
 E desconfiado mas vencido, mandou-me parar de tocar, com um ríspido: já  chega. E foi embora.
Depois, respirei fundo. E acalmei. E parei de tremer por dentro. Olha se o gajo conhecesse a obra do Zeca... Mas os porcos, não comem pérolas.

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