sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O Grupo "Gerações"


Quando larguei as bandas, e comecei a tocar acústicos, surgiu um convite da parte da Câmara Municipal do Seixal, francamente interessante e desafiador. Era uma espécie de encomenda de um espectáculo a realizar no Cinema S.Vicente cujo tema seria em torno de canções ligadas à celebração do 25 de Abril.
Foi um desafio que aceitei, apôs garantir a parceria com o Nuno Tavares, nas teclas, que fez arranjos de muita originalidade e qualidade, com a Tânia Grelha, e a sua excelente e educada voz, e com a minha filha, Joana Belo Trindade, modéstia aparte, muito boa percursionista. 
Cantou-se e tocou-se Paulo de Carvalho, Zeca Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho, Fernando Tordo, Adriano Correia de Oliveira e Rui Mingas.

Na entrada em palco, senti o misto de emoções: 
Do prazer de entrar em cena, com os projectores virados para o grupo, e sem poder vislumbrar a plateia, onde no escuro se sentia um publico respeitador e atento.
Mas também, aquele nervoso miudinho,  a resvalar para o pânico de iniciar a actuação, que começava precisamente com uma versão que fiz da canção "Mãe Negra", do Paulo de Carvalho.
O dedilhado era meu, a voz era a minha e aquilo tinha de começar. E o resultado foi que saiu bem, a julgar pelas palmas da audiência, e a partir dali, veio a confiança, e uma grande actuação.
Foi a única exibição do grupo a que chamamos "Gerações".

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Os Vocalistas da transcrição fonética

Antes de tocar com o Parreira, que dominava na perfeição a língua inglesa, toquei algumas vezes, no grupo Renovação, de Santana, Sesimbra, com um vocalista de nome Cascais. O Cascais era uma espécie de Zézé Camarinha de Sesimbra, e uma vez estávamos à espera dele para iniciar um baile, na Maçã, e nada do Cascais. Mais tarde, recebemos a noticia de que o Cascais engatara uma estrangeira, vinha a abrir no carro dela, e atropelou uma pessoa. O Cascais foi dentro, e não houve baile. 
Com ele tive o primeiro contacto daquilo que aprendera nas aulas de inglês, no Liceu: a transcrição fonética (neste caso, caseira). 
Em consulta às letras na língua inglesa,  do Cascais, deparei-me com pérolas do tipo, em vez de 'I love you', ele escrevia 'ailóviu'. E assim por diante. 
Mais tarde vim a tocar com mais dois vocalistas, que não sabendo uma palavra da língua britânica, escreviam as suas cábulas desta forma, e claro que, não imaginavam patavina do significado daquilo que estavam a cantar.
Pessoalmente, nunca gostei desta forma de trafulhice, mas também não seria eu quem os ensinaria. Por vezes, nos coros haviam algumas divergências de pronuncia, mas com o barulho das luzes, passavam despercebidas.
No entanto, tal não era problema, pois na audiência também poucos haveriam capazes de detectar a situação. Aquilo apenas tinha de soar bem, pois cantar 'you are the sunshine of my life' é o mesmo que cantar 'iuàredeçânxaineòfmailaif'.

Dois Vocalistas que usavam a transcrição
O Eduardo Beirão

O Alexandre (ao meio)


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Ferramentas

O pessoal de hoje dificilmente imagina aquilo que padecia o musico para conseguir tirar uma musica a rigor. Enquanto que hoje temos todas as letras e acordes à disposição na internet (embora por vezes precisem de correcção) com a possibilidade até de lhes alterar o tom, nos outros tempos, tinha de ser tudo extraído 'à mão'.
O processo passava por ter a musica, ou gravada ou em disco de vinil. Quando havia o vinil, o método era ir tocando o disco aos soluços para sacar a letra: ouviam-se e memorizavam-se algumas palavras, levantava-se a agulha e escrevia-se. Depois era repetir até ao final. Este procedimento, nada pratico e moroso, foi responsável por muitos discos riscados, e inúmeras agulhas partidas.
Quando havia a gravação em cassete, depois de obtida a muito custo, porque eu chegava a passar horas, com o gravador em frente ao rádio, à espera que passassem 'aquela' musica que eu queria tirar, e quando ela passava, rezava para que o locutor não falasse durante aqueles minutos de reprodução.
A dor de cabeça maior eram os acordes. Sempre existiram canções fáceis e intuitivas, tal como sempre existiram as canções com acordes e passagens tão difíceis e dissimuladas, que me levavam ao desespero, por não conseguir detectar tudo correctamente.
Mesmo hoje, quando rebusco um ou outro tema fora do circuito, recorro ao método do para- arranca. Não usando a agulha, mas sim, o rato.

Uma das publicações que marcou a minha geração, foi a do "Mundo da Canção", que para além de artigos exclusivamente sobre musica e músicos, publicava muitas letras, e assim facilitava o trabalho, era apenas copiar, e muitas vezes era uma boa fonte de sugestões para constituir um bom repertório.
O primeiro gira-discos, comprado em 1965

O revolucionário gravador de cassetes, de 1968, uma novidade naquela época, e que ainda possuo

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Os primeiros pedais

Hoje ligamos a tv, e temos 500 canais. No "meu tempo" havia um. Hoje um telefone tem centenas de funções (até a de fazer e receber chamadas), mas no meu tempo, servia somente para telefonar, era de baquelite preta, e estava agarrado à parede ou ao chão por um fio.
Assim eram antes os amplificadores. Nus e crus.
Embora continue a preferir que os efeitos do som da guitarra seja tratado por pedais, existem hoje amplificadores que têm tantos efeitos que nos perdemos na sua apreciação. Assim acontece com os pedais. São milhares, as possibilidade de escolha.

Mesmo nos anos 60 tive a sorte de poder ter um bom e fiel amplificador, que mesmo "a seco" tinha um som cheio, claro e potente. Vinha equipado com os tradicionais efeitos reverb e tremolo, e o efeito novidade de "wah-wah". Assim era, e continua a ser, o meu Yamaha YTA-95.

Contudo, desde cedo que comecei a usar e abusar dos pedais, nem sempre fazendo as melhores escolhas, por via, da falta de oferta no mercado, e dos preços. Mesmo assim, fui tentando sempre ter alguma versatilidade sonora, para não ter de usar os mesmos registos durante os longos bailes de 5 horas.

Aqui ficam alguns dos pedais que usei entre os anos 60 e 80, tentando dar uma cosmética ao meu som. Falta a foto de pedal wah-wah, de cor amarela, que usei no Sound Five.

O primeiro pedal, comprado na Custodio Cardoso. Dava-lhe tanto uso que convenci o Parreira a adaptar-lhe um alimentador  9V/220V (difícil na época). Era o delírio abri-lhe a goela no Easy Living dos Uriah Heep.

O Höfner de volume, servia-me para além de controle de volume fazer os solos "à Steve Hackett" nos quais me inspirei com os sons do álbum The Lamb Lies Down on Broadway

O Small Stone revolucionou o som de muitos guitarristas. Era o som que todos os que curtiam Pink Floyd e Camel queriam tirar, e este menino, bem regulado chegava perto. O resto era ter unhas.

Dei-lhe pouco uso em palco, dado ser um pedal muito especifico cujas possibilidades embora boas, pouco serviam para as minhas escolhas, mas mesmo assim, quando usado, deixava o pessoal desconfiado e a dizer - onde é que o gajo vai buscar aquele grave.

Este menino tinha um booster potentissimo e muito bem calibrado. Fez muito sucesso no Código dos anos 70, o fuzz era também de boa qualidade. Ligado ao potente Farfisa, fez muito bem o seu trabalho.

O único pedal que usava no Iodo, servia-me muito para usar varias configurações de equalização, e conseguir bons sustains. O ataque era fortíssimo e estridente, e por isso tinha de o usar com cuidado para não rebentar com o PA. Foi comprado pelo Luis Cabral nos EU.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A feijoada

O Código actuava com regularidade na região de Abrantes, E um dos locais que mais nos chamou, Atalaia da Barquinha, era onde mais gostávamos de tocar, dada a afectividade de quem nos contratava, bem como da resposta do publico. Tínhamos ali naquela pequena localidade uma grande recepção, que não fugiu à regra, no dia em que chegamos para tocar, e horas antes tinha falecido alguém lá  na terra. Ainda telefonaram, mas naquele tempo, não haviam telemóveis...

A proposta foi simples: o baile estava cancelado, pagavam-nos a deslocação, e contratavam-nos para uns quantos bailes, nos meses seguintes. E mais, dado que tínhamos feito aqueles quilómetros todos, não iríamos de barriga vazia, não senhor. Foi-nos preparada uma enorme feijoada, para nos deliciarmos. 
A decisão foi unânime, aceitamos. E comemos e comemos, e bebemos, e bebemos, e bebemos. Tudo mais do  que a conta. Não era todos os dias que podíamos comer e beber sem a pressão do horário e da lucidez conveniente para garantir a actuação.

No regresso, daquela noite não tocada, e bem regada, de frio outonal, passado um bom bocado, um elemento do grupo é acometido por enorme dor de barriga, e aflito, pede ao Macedo para encostar a carrinha. Era urgente, notava-se pelo ar de suplica. A carrinha encosta à beira de um imenso pomar, estava escuro como breu e o nosso aflito colega desaparece entre as silenciosas macieiras.
Em menos de trinta segundos, ouvem-se dois tiros, e vemos o nosso musico a correr direito à carrinha ainda a puxar as calças para cima, e aos gritos.

Deduzimos todos que, depois da carrinha arrancar à velocidade possível, alguém estaria de guarda ao pomar, e com os tiros assim afugentava os possíveis larápios. E ao ouvir um motor a parar no meio da noite: pum, pum!!

O problema.... foi o cheiro que emanava do nosso colega. 

Ficou ali provado que se consegue viajar mais de cem quilómetros em noite fria, com  as janelas da carrinha aberta, e que também se trava uma caganeira à lei da bala.



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Código & Girls

Das inúmeras formações que Código teve, uma dela incluiu duas mulheres durante uns meses, nos anos 90. Os motivos foram invulgares, ou não. Tudo começa quando o Zé "Patilhas"começa a notar que a recém vizinha, a Beta, canta umas coisas. Palavra puxa palavra, e começa uma relação entre ambos, que se vai estendendo aos ensaios do Código. Dali até à proposta de incluir a Beta como vocalista foi um passo. O Alcobia não aprovou, eu achei que uma presença feminina seria bem vinda comercialmente, e o Fernando Jorge (teclista) também não aceitou, mantendo-se algum tempo na banda, mas depois saiu por causa da Beta. E entra a Célia para os teclados.

A experiência de tocar e até de fazer alguns arranjos com a Célia foi muito boa. Existe um toque diferente na mulher instrumentista. Diria que algo de subtil e dissimuladamente felino. Não dando tanto nas vistas (no caso, nos ouvidos) a Célia abordava os temas com muito talento e elegância. Gostei muito de tocar com ela. Para além disso tinha uma boa voz, agradável, muito melodiosa.

A experiência com a cantora foi mais complicada. Com muito boa voz a Beta, sofria do mal de muita gente: pensa que sabe, e convencendo-se dessa sua "realidade" entra dentro seu ego e não aprende que é preciso sempre aprender, e corrigir. Essa falta de humildade foi fatal, na actuação em que deixei de lhe dar as "entradas" para as musicas, como até ali sempre fizera. Ao jantar, a conversa não fora agradável, e foi aquela cena da gota de água. O resultado foi que a Beta falhou em cima do palco, e o Zé, na defesa da sua dama, zangou-se comigo. E por ali acabou a formação. Pois foi em cima desse palco, em Lisboa, que decidi não tocar mais nesta formação.
Mas valeu a pena a experiência. E algumas boas recordações, tais como ouvir a Célia a cantar o I can see clearly now, com o teclado no registo Fender Rhodes.
Eu, a Beta, o Zé, a Célia e o Alcobia





quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Sound Five, primeira formação

O pós 25 de Abril em nada modificou o reportório dos conjuntos musicais de época, por onde andei. No antes, era quase todo em inglês, com algumas excepções, em espanhol, e uns êxitos brasileiros, principalmente do Roberto Carlos. No depois, o mesmo. Digamos que a revolução não passou pelos grupos de baile onde estive, ou melhor, passou ao lado. Mas, nem de todos, lembro-me de ver o Eduardo Beirão, nos "Foguetões do Ritmo", de punho no ar, em pleno baile, a cantar o Avante camarada...

A primeira formação do Sound Five, foi gradualmente limpando os temas com os quais não se identificava, e escolhendo segundo os seus padrões de gosto.
Não havia grande rigor estético, mas havia muita garra, entusiasmo e vontade de tocar, e por outro lado havia um publico fiel que nos acompanhava nas nossas deslocações. 
Com o passar do tempo, fruto das inúmeras actuações, e crescente coesão dos músicos, esta primeira formação do Sound Five, foi a mais bem conseguida, e a que mais empolgou os seus elementos.
Na medida em que o tempo ìa passando introduzíamos musicas a nosso gosto e não em obediência aos contratantes, e o melhor, tornava-mo-nos diferentes dos outros conjuntos. Enumero aqui algumas canções, que ainda lembro, faziam parte das nossas actuações:

July Morning - Uriah Heep
Easy Living - Uriah Heep
Sympathy for the devil - Rolling Stones
Jumpin Jack flesh - Rolling Stones
Nights in White Satin - Moody Blues
Sylvia's mother - Dr. Hook & The Medicine Show
Sunshine of your love - Cream
Atlantis - Donovan
Have you ever seen the rain - Creedence Clearwater Revival
Black Magic Woman - Santana
Samba pa ti - Santana
Oye como va - Santana
Something - Beatles
Hide in your shell - Supertramp
When a blind man cries - Deep Purple
Feelings - Morris Albert




O Sound Five, na Quinta da Trindade, no Seixal, em 1975







terça-feira, 13 de novembro de 2018

Iodo, e os direitos de autor

Como um dos compositores dos temas do Iodo, quando tivemos de mencionar a nível oficial a autoria das canções, propus liricamente que independentemente de quem fosse o autor, os temas seriam da autoria de todos. Era a minha visão romântica e ingénua, na época. Se éramos um grupo, havia ser observada a igualdade. Pelo que as quatro canções dos singles, estão registadas em co-autoria dos elementos do grupo.
Contudo, o vil metal começa a manifestar-se, e com a razoável venda dos discos, todos começamos a receber umas boas quantias, vindas da editora e da Sociedade Portuguesa de Autores. O filão é tão bom que ainda hoje recebo uns trocos, e já se passaram quase 40 anos.
A surpresa surgiu quando o Luís Cabral e o Rui Madeira decidem anunciar que para o LP, a autoria dos musicas seria atribuída apenas ao seu autor, e não aos cinco elementos. Igualmente, a escolha dos temas a incluir no LP Manicómio, passou a ser baseada em alguns temas "feitos à pressa".  A evidencia na procura de obter dividendos com os direitos de autor foi de tal forma que apenas descobri em plena gravação do LP, que uma letra de uma canção de minha autoria, tinha sido substituída por outra letra, supostamente composta pelo Luís Cabral, e que o seu titulo tinha sido também mudado.
Como a verdade costuma vir ao de cima, trinta anos mais tarde venho a saber que a letra em questão fora escrita pelo explicador de Historia do Luís, para que assim os direitos de autor não revertessem a meu favor.
Hoje, não guardo nenhum ressentimento aos meus parceiros, no Iodo (como demonstra a foto em baixo), mas a situação magoou-me profundamente na época, e foi este um dos motivos para não ter mais interesse no projecto Iodo.
A justiça, amarga, produziu-se na fraca aceitação por parte do publico e da imprensa, ao Manicómio. O LP revelou-se um fracasso, e não vendeu. E os autores não facturaram.

O tema em questão é o segundo tema do lado 1 do disco, designado por Lendas, mas o seu verdadeiro titulo era Velho Corre, conforme a foto do alinhamento de um concerto nosso.



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Parcerias, 2 Guitarras

Instituto Camões, Luxemburgo


Restaurante Chiado Luxembourg, Belvaux

Casino de Mondorf-les-Bains

Restaurante O Forno, Esch-sur-Alzette

Restaurante La Taverne, Luxembourg
O Fado, mesmo que eu não quisesse dar por ele, fez parte da minha educação musical. Desde miúdo que o ouvia nas rádios, e na voz da minha avó Idalina, que os ia cantando para afugentar as suas mágoas. 

O Fado era, nos meus tempos de infância, um estilo mal amado, e mesmo quando comecei a tocar, era praticamente banido dos reportórios, muito mais focados em musicas estrangeiras.
O meu encontro profissional com o Fado começa na boite O Selim, onde tinha de acompanhar artistas que cantavam o género fado-canção. Com o guitarrista residente do Selim, o Nelo, aprendi algumas técnicas de trinar e fazer soar a guitarra eléctrica o mais parecido possível com a guitarra de fado. E o Nelo era um executante exímio, ou não fosse ele o guitarrista da orquestra da Emissora Nacional, hoje Antena 1.

Partilhei muitos palcos e espectáculos com fadistas, tais como Amália, Herminia Silva, António Mourão, Vasco Rafael, Alexandra, Camané, Ana Moura, entre outros que esqueci, sem nunca dar o devido valor a este tesouro da nossa Musica.

Cheguei até a fazer (ou tentar) o som a um tal qualquer coisa da Câmara Pereira, e no fim nem um obrigado. Sim, a falta de educação também existe nos "artistas".

No Luxemburgo, por feliz acaso, e por mão de a quem dedicarei mais tarde um merecido post, conheci o Pedro Quintas, um excelente executante de guitarra portuguesa, que me fez modificar todo o meu conceito relativo ao Fado, e principalmente ao papel da guitarra de acompanhamento, cargo a que eu mesmo me propusera, sem fazer ideia da complexa responsabilidade deste trabalho.

E dai que comecei por ter ensaios que eram mais aulas do que ensaio, com lições de postura, modo de dedilhar e executar os baixos, extremamente importantes no acompanhamento. Ao mesmo tempo fui começando a evoluir na arte de cantar e sentir o Fado, e de tal forma vesti esta camisola, que adquiri uma viola especifica para o efeito, uma APC, fabricada em Braga, e com cordas de aço. Dura mas competente.

Da parceria com o Pedro, nasceu o duo, 2 Guitarras, que com maia dúzia de ensaios, umas feijoadas e uns tintos, começou a tocar, com uma formula descomplicada: o Pedro executando alguns temas a solo, de Fados de Coimbra, e Carlos Paredes, e o restante do espectáculo, com um naipe de Fados, escolhidos em torno das minhas possibilidades vocais e de execução, com finais extras, abordando Rui Veloso, Vinicius e até Led Zeppelin e Pink Floyd.

Foi muito bom, enquanto durou. E o meu respeito ao Fado, cresceu desmesuradamente. Hoje, quando o canto nos meus espectáculos, sinto-o, e faço com que, quem me escuta, o sinta.


sábado, 10 de novembro de 2018

Influências, os Genesis

Todos os músicos têm, inevitavelmente, influências. O musico que consegue dissociar as suas influências e cria um estilo próprio, é, quanto a mim, um génio, marcando a sua individualidade, e ficando para sempre na Historia. Quando se escuta Mozart, Carlos Paredes, ou Mark Knopfler, (esta escolha não é por critério de eleição) sabemos de imediato identificá-los. A sua marca é exclusiva.

No caso do som e obra de Steve Hackett, o assunto é mais discreto, ou menos evidente. Imagino que o Steve seja uma pessoa muito calma, introvertida, porém, completamente seguro de si e da sua arte, e que mesmo tendo o gosto de "brilhar", gosta de brilhar em grupo. Por isso, a sua forma de estar, de tocar, de assumir o palco. O Genesis deram-lhe um palco inigualável. A sua carreira seria bem diferente, sem os Genesis, tal como os Genesis seriam bem menores sem o Steve. E quando ouvi pela primeira vez o seu trabalho... fiquei literalmente influenciado. Em momentos parece que não damos por ele, mas a sua guitarra está presente, e como. Assim como irrompe pelo tema dentro, rasgando tudo à sua volta com solos envolventes e arrebatadores.

O primeiro disco de vinil que comprei dos Genesis foi o Selling England by the Pound, em 1973, e de imediato se estabeleceu a minha devoção a este grupo, desde a primeira audição. Na medida das posses económicas fui comprando os LP's anteriores, tendo conseguido mandar vir o primeiro vinil de Inglaterra, pois não o consegui em Portugal.
A sós, ou com o meu amigo e parceiro de palcos, Alcobia, passava os Genesis, sem descanso. E em muitos ensaios, naquelas desbundas que apenas os músicos sabem o quanto é bom, tentávamos como sabíamos dar corpo aos estilos Steve Hackett e Phil Collins.

Um amigo, disse-me uma vez que o solo de guitarra que faço no tema Expiração de um Louco, no LP Manicómio, do Iodo, tem sonoridade e inspiração "Hacketiana". E provavelmente tem.
Muitas vezes busquei na minha Gibson, o som abafado do humbuker grave, cortando-lhe totalmente os agudos, e equalizando com graves e médios, e efeito sustain. O resto, reside na execução. No talento.

Pelo que sendo fã dos Genesis, e particularmente do  Steve Hackett, foi, em 1975, um sonho realizado, ter conseguido assistir ao concerto que deram em Cascais. Foi, como referi o concerto da minha vida, (e eu que tenho uma boa quantidade de concertos vividos) com um som avasslador. 

Nunca deixei de acompanhar a obra e percurso do Steve, depois de abandonar os Genesis, e de continuar a admirar a sua técnica tanto na execução eléctrica como acústica. No Código, com o Virgílio na Voz, chegamos a tocar os temas Carpet Crawlers, e  Squonk.

Quando tenho possibilidade, em publico, executo o solo do Firth of Fifth, que é para mim um dos mais belos solos de guitarra.

O vislumbre de possibilidade de poder reencontrar o Steve Hackett, e revisitar o Selling ao vivo, já me deixa hoje com aquela sensação de borboletas no estômago. 

Começa hoje a contagem decrescente. 










sexta-feira, 9 de novembro de 2018

As aparelhagens de vozes

Antes dos P.A.s (abreviatura de Public Adress) existiam as "aparelhagens de vozes" destinadas apenas a amplificar todo o som captado pelos microfones, sendo contemplados apenas as vozes e os instrumentos de sopro. Os restantes, guitarristas, e teclistas para se fazerem ouvir tinham de se munir de autênticas torres de som, e o baterista era sempre o mais sacrificado na luta pelos decibéis pois não actuava amplificado. Tinha de bater muito forte.
Existia inicialmente a escolha de colocar a "mesa das vozes" mesmo na frente do palco, o que não era nada prático para ir regulando o som, mas dava nas vistas. Mais tarde, o bom senso aconselhou a que a mesa passasse para a retaguarda ou laterais do palco, bem à mão do vocalista. E alguns adoravam encher o seu som com eco, de modo a não se entender uma palavra daquilo que cantavam.
Era também o tempo das "câmaras de eco" que deliciavam o pessoal quando faziam aquele teste de som: oh, oh, dois, dois, som, som. 

Não obstante os exageros e limitações da época, era quase sempre mais agradável escutar uma banda em salas, com este tipo de equipamento, do que amplificada por P.A. isto porque a relação dimensão da sala / potência do P.A. era e é desproporcionada, e também porque a maioria dos conjuntos exagera sempre nos volumes e regulações. 

Caso para dizer neste caso, que antes é que era bom.


O Código, com a mesa das vozes atrás
Na foto o Zé "Patilhas", o Eduardo Beirão e eu

O Codigo, com a mesa à frente do palco
Na foto, o Zé "Patilhas", o Paulo, o Espírito Santo, o João Mário, o Casquinha, o Jacinto Montezo, e o Valdemar

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Iodo, e o Rock Rendez-Vous

O trampolim mais importante na carreira do Iodo foi sem duvida, ter entrado para a grelha de bandas aceites para actuar na mais influente e dinamizadora casa de espectáculos de Lisboa, à época. 
O RRV para além de uma boa sala, com bom equipamento, boa acústica, tinha os critérios suficientes para exigir boas bandas, e por isso, garantir bons concertos.
Com o RRV, tivemos duas boas prendas, e a primeira foi minha, apesar de beneficiar toda a banda e o seu som. Os primeiros dois contratos, foram para uma terça feira e quinta feira seguinte. Aconteceu que a minha fiel Ibanez, muito competente até ali, revelava-se agora frágil nos concertos, principalmente na questão da afinação, pelo que o primeiro concerto, apesar de bem conseguido, sofreu uns quantos desafinanços a cada investida nos solos mais vigorosos.
Perante o vislumbre de que no concerto seguinte iria acontecer a mesma situação, resolvemos ir à Custodio Cardoso, no Chiado comprar uma guitarra. A exposição de guitarras disponíveis não era vasta, umas Ibanez, outras de marca duvidosa, e uma Gibson. Era a única que me interessava, mas o preço, colocava a compra fora de questão, 60 contos. E eis que o Rui Madeira, fiel depositário dos dinheiros do Iodo, pergunta ao vendedor se lhe faz um desconto. E fez, de 10%. E assim saímos com  a Gibson The Paul (igual à do Renato Gomes dos UHF) , com estojo de origem, com menos 54 contos na conta, e eu meio atordoado com o que acabara de acontecer. Nessa noite a Gibson dormiu ao meu lado, e na noite seguinte o concerto correu melhor e afinado. 
A segunda prenda, foi a visita do Manuel Cardoso (Frodo) guitarrista dos Tantra, na altura em funções de produtor musical para a editora Vadeca, uma segunda linha da Valentim de Carvalho.
Tal como foi volátil a compra da Gibson, volátil foi o processo consecutivo à abordagem do MC: Eu (MC) produzo um single, a Vadeca é a vossa editora, e assinamos contrato, ok? E assim sucedeu. Ao fim de uns dias fomos assinar o contrato, e seguimos para estúdio, entrevistas, sessões fotográficas, tipo vedetas. A fama estava próxima. 
Quanto aos concertos no RRV todos foram efusivos e sempre um sucesso, pois tudo se configurava, do som, à iluminação, à proximidade e aceitação participativa do publico. Foi um dos melhores palcos onde toquei, a nível de satisfação e realização, e creio que foi para além de um marco único na divulgação do rock, um exemplo de que havendo salas, existe o artista, e o espectáculo.
O RRV foi também um dos locais escolhidos pelo Iodo para as gravações do video clip do tema "Malta à Porta", literalmente quando amigos nossos e roadies, agindo como figurantes fingiam atropelar-se para entrar pela porta do RRV. As imagens do video clip em concerto, são também no RRV.

Os concertos do Iodo no Rock Rendez-Vous

03/02/1981 
05/02/1981 
05/05/1981 
16/07/1981
30/12/1981










sábado, 3 de novembro de 2018

Via Verde, o ultimo grupo

O Via Verde, surgiu em 1999, sucedendo aos restos mortais da enéssiva formação do Código, e revitalizado com gente nova, porque para isto de palcos, há que haver gente nova e com pedalada.
Tivemos algumas mudanças de teclistas, e por alguns tempos uma vocalista, e a formação durou até à noite de fim de ano de 2006 para 2007.
Olhando por todas as formações pelas quais passei, posso assegurar que sendo este o grupo com o qual me despedi dos palcos de bailes, foi sem duvida um bom arrumar de botas.
Desde o inicio que criamos uma empatia entre os quatro elementos da formação. Até ali sempre tocara com pessoal mais velho, e ser o mais velho da banda custou-me a carinhosa alcunha de - velho.
Fazendo contratos directos, e agenciados por alguns empresários do mundo do espectáculo nunca nos faltou trabalho, principalmente do período que ia dos santos populares ao final do verão, fazendo autenticas digressões, por vezes de uma semana. As aventuras, como se calcula, foram imensas, e o gozo no palco, nos trajectos, nas refeições, nos hotéis, foram-no igualmente.
O pior mesmo, era um mal comum a muitas bandas neste registo: os cachéts baixos, dado que os músicos, na ganância de tocar, foram desvalorizando o seu trabalho, e quem contrata, é quase sempre oportunista. Mas mesmo assim tivemos recordes de facturação, como aconteceu com o valor que recebemos na passagem de ano de 1999 para 2000, data em que toda a gente perdeu a cabeça, e afinal foi apenas uma simples mudança de calendário, como acontece todos os anos.
Era também frustrante termos de sustentar uma boa parte do repertório com musicas que não nos diziam nada, mas o mercado assim o obrigava. Valiam-nos os momentos em que podíamos "abrir" tocando rock & roll, e alguns temas dos Xutos, Iris e dos Quinta do Bill.
Foi nesta banda que descobri, ao introduzirmos temas de um conhecido "artista", cantados pelos Luis Borges, os plagios aos temas "Siffler sur la colline" ( versão de "suddenly you love me" dos Tremeloes) do Joe Dassin, e da canção "l'idiot"de Hervé Vilard.

Na dificuldade de conseguirmos um teclista, e perante a evidência já anunciada de que o velho  tinha de mudar de vida musical, decidimos terminar, sem nostalgias, na data anunciada.
E em boa hora, pois sem que houvessem previsões, novos e bons caminhos se anunciaram.
Na noite de S. Pedro, no Seixal

Na Quinta da Cabrinha, em Palmela, a formação original


No casamento do nosso teclista Luís Silva

Em Loures, com a Tânia como vocalista e o Nuno Tavares nas teclas


A formação inicial:
Luís Ferreira, Bateria
Luís Silva, Teclados
Luís Borges, Baixo, vozes
Jorge Trindade, Guitarras, vozes

Quem também fez parte:
Tânia Grelha, Voz
Nuno Tavares, Teclados
José Pereira, Teclados



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Os professores, António "Careca"

à esquerda, o António "Careca" com a Eko, nas teclas o José Mendes e no baixo o Peixoto, com quem viria a tocar mais tarde
Aqui referido, em post anterior, o António "Careca", alcunha que lhe ficou porque muito cedo começou a perder cabelo, foi o meu primeiro professor de guitarra.
Sendo vizinho daquele grupo de putos que tentava dar uns toques numa arrecadação ali ao lado de sua casa, o António aparecia com frequência naquela espécie de ensaios, e logo ali começou a dar-me alguma orientação, sobre como usar o instrumento guitarra, bem como, o que não fazer com ela.
Pelo que, aliado à sua paciência em ensinar, corrigir, e dirigir praticas, crescia em mim um entusiasmado empenho em aprender sempre mais, uma vez que os progressos estavam à vista, em cada vez que acontecia uma aula.
As aulas eram simplesmente ir à casa dele, (a 20 metros da minha) e aprender acordes, solos, transições. As praticas andavam muito em torno das musicas dos Creendence Clearwater Revival, banda idolatrada pelo António, e com ele aprendi o solo do Proud Mary, bem como o solo do Yellow River, dos Christie, por exemplo. Haviam também exercícios rítmicos, e as primeiras introduções à leitura das partituras cifradas.
Chegou uma altura em que eu precisava mesmo de uma guitarra eléctrica. A minha frágil acústica, para além de fraquinha, dava-me cabo dos dedos, nas horas de pratica, e esse momento coincidiu com o momento em que o António compra uma Hofner, uma guitarra sublime, e me coloca a sua Eko nas mãos. Eu queria aquela guitarra.
Dinheiro não havia, pois eu ainda não tocava. E é ai que acontece um milagre, ou não. A minha avó Idalina ao confirmar com o António a minha aptidão para a musica, prontificou-se a dar o dinheiro para a compra da Eko e do amplificador Yamaha. A Eko era minha, e custara a fortuna de 1.900$00.

Para além de excelente guitarrista, o António era também uma bom executante de trompete, mas nunca me apliquei nos instrumentos de sopro, embora admire imenso este instrumento. Igualmente era pintor, com muita qualidade, e tanto pintava telas, ou garrafas, como pintava paredes. Em suma, um Artista.
Quando podia, ia vê-lo tocar, no 5 Stars+1, que depois passou a +2, e sempre aprendia algo naquelas audições, e claro, sempre dançava uns slows.

Ao longo dos anos, fui-me encontrando algumas vezes com o António, e notava nele algum orgulho em me ter desemburrado e de certo modo instruído, na medida em que lhe dava novidades sobre o meu percurso. 
Mais tarde, já depois de ter adoptado a minha fase acústica, encontrei-o, velhinho, com problemas de visão, mas ainda lúcido. Quis mostrar-lhe a minha guitarra que levava comigo, mas ele recusou. O António zangara-se com a Música por algum motivo. Presumo que por falta de condições físicas. Mas isso são os meus pensamentos.