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| à esquerda, o António "Careca" com a Eko, nas teclas o José Mendes e no baixo o Peixoto, com quem viria a tocar mais tarde |
Aqui referido, em post anterior, o António "Careca", alcunha que lhe ficou porque muito cedo começou a perder cabelo, foi o meu primeiro professor de guitarra.
Sendo vizinho daquele grupo de putos que tentava dar uns toques numa arrecadação ali ao lado de sua casa, o António aparecia com frequência naquela espécie de ensaios, e logo ali começou a dar-me alguma orientação, sobre como usar o instrumento guitarra, bem como, o que não fazer com ela.
Pelo que, aliado à sua paciência em ensinar, corrigir, e dirigir praticas, crescia em mim um entusiasmado empenho em aprender sempre mais, uma vez que os progressos estavam à vista, em cada vez que acontecia uma aula.
As aulas eram simplesmente ir à casa dele, (a 20 metros da minha) e aprender acordes, solos, transições. As praticas andavam muito em torno das musicas dos Creendence Clearwater Revival, banda idolatrada pelo António, e com ele aprendi o solo do Proud Mary, bem como o solo do Yellow River, dos Christie, por exemplo. Haviam também exercícios rítmicos, e as primeiras introduções à leitura das partituras cifradas.
Chegou uma altura em que eu precisava mesmo de uma guitarra eléctrica. A minha frágil acústica, para além de fraquinha, dava-me cabo dos dedos, nas horas de pratica, e esse momento coincidiu com o momento em que o António compra uma Hofner, uma guitarra sublime, e me coloca a sua Eko nas mãos. Eu queria aquela guitarra.
Dinheiro não havia, pois eu ainda não tocava. E é ai que acontece um milagre, ou não. A minha avó Idalina ao confirmar com o António a minha aptidão para a musica, prontificou-se a dar o dinheiro para a compra da Eko e do amplificador Yamaha. A Eko era minha, e custara a fortuna de 1.900$00.
Para além de excelente guitarrista, o António era também uma bom executante de trompete, mas nunca me apliquei nos instrumentos de sopro, embora admire imenso este instrumento. Igualmente era pintor, com muita qualidade, e tanto pintava telas, ou garrafas, como pintava paredes. Em suma, um Artista.
Quando podia, ia vê-lo tocar, no 5 Stars+1, que depois passou a +2, e sempre aprendia algo naquelas audições, e claro, sempre dançava uns slows.
Ao longo dos anos, fui-me encontrando algumas vezes com o António, e notava nele algum orgulho em me ter desemburrado e de certo modo instruído, na medida em que lhe dava novidades sobre o meu percurso.
Mais tarde, já depois de ter adoptado a minha fase acústica, encontrei-o, velhinho, com problemas de visão, mas ainda lúcido. Quis mostrar-lhe a minha guitarra que levava comigo, mas ele recusou. O António zangara-se com a Música por algum motivo. Presumo que por falta de condições físicas. Mas isso são os meus pensamentos.