segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Iodo, o LP, e o principio do fim

Quando os Iodo se formaram, estávamos longe de pensar conseguir gravar um single, quanto mais um LP. Foi tudo rápido como a chama de um fosforo. As editoras tinham ganancia, e os grupos tinham ambição. Ambas, desmedidas.
O convite de gravarmos um LP, suscitou-me em primeiro lugar um entusiasmo natural, mas também o sentimento de que ainda não estávamos preparados para construir um álbum. A minha opinião foi a de que deveríamos ter colocado um terceiro single no mercado, com os temas "Expiração de um Louco", da autoria do Luís Cabral, no lado A e "Ventos do Além", da minha autoria, no lado B.
Depois, deveríamos amadurecer e construir temas para um álbum.
Como os factos demonstram, não fui ouvido, e como os factos demonstram também, o LP foi um fracasso, arrasado pela critica, e não vendeu. E o Iodo acabou.
Entendo, em grande parte, os motivos desse fiasco, dadas as expectativas dos especializados e do publico: é que o Iodo do LP não era nada o Iodo dos singles. Alguns temas foram metidos à pressa, e sob pressão. A mistura foi uma bosta, com o resultado de um som amaricado, que não identificava o verdadeiro som da banda ao vivo, registado nos singles.
Como nunca gostei de águas paradas, e antecipando um final anunciado, larguei a banda quase após as gravações do disco.
Nem compareci aos trabalhos de mistura, nem à elaboração da capa, ou qualquer outra actividade relacionada com o disco, cujo exemplar que possuo, tive de o comprar.
O Iodo para mim morrera, e a Musica esperava-me em outros lugares.
Contudo foi uma experiência única, e que teve este lado menos bom. Sobre os restantes lados, por aqui se falará mais tarde. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Elas, ou 'já tive guitarras de todas as cores...'









Ao longo da minha vida de musico, perdi a conta exacta às guitarras que tive. Creio que ao todo, perto de 50, entre chegadas e partidas, um pouco na linha da canção do Martinho da Vila, "Mulheres". Muitas delas nem ficaram muito tempo. Umas por fraca qualidade, outras por não correspondem aquilo que esperava delas, e também porque entendo que a guitarra deve ser tocada, senão, passa a ser um mero objecto de adorno, e vai definhando com o tempo. Mais uma comparação com o tema do Martinho...
Da primeira viola que tive e nunca esquecerei, onde aprendi os primeiros LA's e MI's, à ultima, adquirida antes de ontem, todas têm uma historia e um motivo de compra e de pertença. Para além de uma ferramenta, a guitarra é uma extensão do musico, no conceito da execução e da comunhão.
De que me serve ter uma guitarra de 5 mil euros, se não me identifico com ela?
Por isso, existem na minha vida, guitarras que foram apenas instrumentos de passagem, e outras que nela sempre permanecerão. Assim acontece também com os afectos humanos.
As que vão ficando, têm e dão-me o prazer de reproduzir musica, e digo têm, porque acredito que sendo a guitarra em grande parte, madeira, esta continua viva. Que o digam os habitantes de Cremona, o berço dos Stradivarius.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A SPA, o bufo, o Zeca, e a GNR

Uma obrigação que existia em alguns bailes, era a de preencher uma lista fornecida pela Sociedade Portuguesa de Autores, mencionando os títulos das canções tocadas nessa actuação, bem como o nome de quem interpretava originalmente as ditas canções. Esse documento tinha o nome de "Direitos de Execução Mecânica".
A entidade contratante pagaria, para além da licença do espectáculo, os devidos direitos de autor à SPA, que por sua vez encaminharia aos respectivos autores.
Graças a este sistema, ainda recebi alguns dividendos, pois mesmo após a extinção do Iodo, nos formulários que tinha de preencher, colocava obviamente, as canções registadas na SPA, nas quais fui autor e co-autor.

Um episódio caricato mas que era marca dos tempos que corriam, passou-se no inicio dos anos 70, em que eu preenchera parte da folha com canções do Zeca Afonso, com a intenção nítida de favorecer o Artista, e eis que aparece no baile o "fiscal" ligado ao licenciamento de espectáculos.
Diziam que muitos dos "fiscais" desse tempo eram em simultâneo o cacique da terra, o informador da PIDE, representante da fiscalização, etc. Era um 3 em 1, pelo menos.
O fiscal pede a licença do espectáculo e a lista. Ao olhar para tanta canção do Zeca, pergunta quem escrevera o rol de canções. Eu - respondi. Ele - Zeca Afonso? Então toque lá  algumas destas musicas para eu ouvir, e se não as souber tocar, chama-se a GNR...
Não perdi a calma. Agarrei na viola e comecei a cantar de ouvido, o que podiam ser letras alusivas aos títulos dos temas escolhidos pelo bufo. Um dos temas " Vejam Bem", foi totalmente adulterado naquele momento tanto na letra como nos acordes.
Mas a minha suspeita batia certo. Estes tipos eram sempre incultos, duros de ouvido, tendo apenas poder. Em frente de toda a gente ali presente, o bufo não quis passar pela vergonha de assumir que não fazia a mínima ideia se eu estava a executar correctamente ou estava a inventar.
 E desconfiado mas vencido, mandou-me parar de tocar, com um ríspido: já  chega. E foi embora.
Depois, respirei fundo. E acalmei. E parei de tremer por dentro. Olha se o gajo conhecesse a obra do Zeca... Mas os porcos, não comem pérolas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Iodo, e a entrevista com o António Macedo


Uma das formas de promoção do Iodo, eram as entrevistas nas rádios. Fizemos o circuito das emissoras lisboetas mais conceituadas, o Rádio Clube Português, Emissora Nacional, Renascença, pelo menos. Estivemos com o Júlio Isidro, também no programa do qual eu era adepto, "Rock em Stock" do Luís Filipe Barros, entre outros.

As idas às rádios eram agendadas geralmente pela nossa editora Vadeca, e não havia um porta voz oficial, aparecíamos nas entrevistas consoante as disponibilidades de cada um.

Umas vezes os temas a abordar nas entrevistas eram previamente combinados, e noutros casos, não.

Como aconteceu quando fomos ao "Mão na Musica" do António Macedo. Seria uma entrevista sem combinações prévias, embora, claro, o tema fosse a Musica, e particularmente a do Iodo.

A essa entrevista, comparecemos eu e o Rui Madeira. O António Sérgio, um homem da rádio que já nessa altura eu admirava, colocou-nos à vontade numa breve conversa, antes de entrarmos para o "ar", ou seja, em directo. A canção que estava a passava era dos Police, e em jeito de introdução, o António Macedo abre a entrevista, na medida em que o tema dos Police ia saindo do "ar", para entrar a nossa canção "A Canção", exclama e pergunta: excelente este "Walking on the Moon", dos Police, o que acham dos Police?
E responde de rajada o Rui Madeira: Não gosto de Police, só gosto de Mike Oldfield.
Foi a maneira mais rápida a mais letal que assisti de matar ali a entrevista.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O Grupo "Gerações"


Quando larguei as bandas, e comecei a tocar acústicos, surgiu um convite da parte da Câmara Municipal do Seixal, francamente interessante e desafiador. Era uma espécie de encomenda de um espectáculo a realizar no Cinema S.Vicente cujo tema seria em torno de canções ligadas à celebração do 25 de Abril.
Foi um desafio que aceitei, apôs garantir a parceria com o Nuno Tavares, nas teclas, que fez arranjos de muita originalidade e qualidade, com a Tânia Grelha, e a sua excelente e educada voz, e com a minha filha, Joana Belo Trindade, modéstia aparte, muito boa percursionista. 
Cantou-se e tocou-se Paulo de Carvalho, Zeca Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho, Fernando Tordo, Adriano Correia de Oliveira e Rui Mingas.

Na entrada em palco, senti o misto de emoções: 
Do prazer de entrar em cena, com os projectores virados para o grupo, e sem poder vislumbrar a plateia, onde no escuro se sentia um publico respeitador e atento.
Mas também, aquele nervoso miudinho,  a resvalar para o pânico de iniciar a actuação, que começava precisamente com uma versão que fiz da canção "Mãe Negra", do Paulo de Carvalho.
O dedilhado era meu, a voz era a minha e aquilo tinha de começar. E o resultado foi que saiu bem, a julgar pelas palmas da audiência, e a partir dali, veio a confiança, e uma grande actuação.
Foi a única exibição do grupo a que chamamos "Gerações".

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Os Vocalistas da transcrição fonética

Antes de tocar com o Parreira, que dominava na perfeição a língua inglesa, toquei algumas vezes, no grupo Renovação, de Santana, Sesimbra, com um vocalista de nome Cascais. O Cascais era uma espécie de Zézé Camarinha de Sesimbra, e uma vez estávamos à espera dele para iniciar um baile, na Maçã, e nada do Cascais. Mais tarde, recebemos a noticia de que o Cascais engatara uma estrangeira, vinha a abrir no carro dela, e atropelou uma pessoa. O Cascais foi dentro, e não houve baile. 
Com ele tive o primeiro contacto daquilo que aprendera nas aulas de inglês, no Liceu: a transcrição fonética (neste caso, caseira). 
Em consulta às letras na língua inglesa,  do Cascais, deparei-me com pérolas do tipo, em vez de 'I love you', ele escrevia 'ailóviu'. E assim por diante. 
Mais tarde vim a tocar com mais dois vocalistas, que não sabendo uma palavra da língua britânica, escreviam as suas cábulas desta forma, e claro que, não imaginavam patavina do significado daquilo que estavam a cantar.
Pessoalmente, nunca gostei desta forma de trafulhice, mas também não seria eu quem os ensinaria. Por vezes, nos coros haviam algumas divergências de pronuncia, mas com o barulho das luzes, passavam despercebidas.
No entanto, tal não era problema, pois na audiência também poucos haveriam capazes de detectar a situação. Aquilo apenas tinha de soar bem, pois cantar 'you are the sunshine of my life' é o mesmo que cantar 'iuàredeçânxaineòfmailaif'.

Dois Vocalistas que usavam a transcrição
O Eduardo Beirão

O Alexandre (ao meio)


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Ferramentas

O pessoal de hoje dificilmente imagina aquilo que padecia o musico para conseguir tirar uma musica a rigor. Enquanto que hoje temos todas as letras e acordes à disposição na internet (embora por vezes precisem de correcção) com a possibilidade até de lhes alterar o tom, nos outros tempos, tinha de ser tudo extraído 'à mão'.
O processo passava por ter a musica, ou gravada ou em disco de vinil. Quando havia o vinil, o método era ir tocando o disco aos soluços para sacar a letra: ouviam-se e memorizavam-se algumas palavras, levantava-se a agulha e escrevia-se. Depois era repetir até ao final. Este procedimento, nada pratico e moroso, foi responsável por muitos discos riscados, e inúmeras agulhas partidas.
Quando havia a gravação em cassete, depois de obtida a muito custo, porque eu chegava a passar horas, com o gravador em frente ao rádio, à espera que passassem 'aquela' musica que eu queria tirar, e quando ela passava, rezava para que o locutor não falasse durante aqueles minutos de reprodução.
A dor de cabeça maior eram os acordes. Sempre existiram canções fáceis e intuitivas, tal como sempre existiram as canções com acordes e passagens tão difíceis e dissimuladas, que me levavam ao desespero, por não conseguir detectar tudo correctamente.
Mesmo hoje, quando rebusco um ou outro tema fora do circuito, recorro ao método do para- arranca. Não usando a agulha, mas sim, o rato.

Uma das publicações que marcou a minha geração, foi a do "Mundo da Canção", que para além de artigos exclusivamente sobre musica e músicos, publicava muitas letras, e assim facilitava o trabalho, era apenas copiar, e muitas vezes era uma boa fonte de sugestões para constituir um bom repertório.
O primeiro gira-discos, comprado em 1965

O revolucionário gravador de cassetes, de 1968, uma novidade naquela época, e que ainda possuo