quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Sound Five, e o João "Padeiro"

O Sound Five, no Independente Futebol Clube Torrense, na Torre da Marinha, Seixal. Ao meu lado está o Quim, Director na época

O João "padeiro" e o seu Pari

Eu, com cara de parvo, o Lesley, o Pari, e a minha Ibanez
No Sound Five, a dado momento, entra o João Trindade para teclista. A alcunha "padeiro" tinha a ver com a actividade profissional: o João distribuía pão numa carrinha Saviem, que aos fins de semana servia de carrinha do conjunto. Tempos em que não existia ASAE, e por isso a nossa aparelhagem cheirava sempre a pão.

Do João "Padeiro" entre muitas outras, guardo 3 recordações dignas de registo:
I
Coisa que não faltava ao João era dinheiro, dai, que um dia acompanhei-o a Lisboa, a uma loja de instrumentos musicais, na Rua das Pretas, comprar um órgão Pari, caríssimo, mas muito bom.  Para entendedores um Pari, apenas  era superado pelos Hammond
Contudo o caríssimo Pari, volta e meia tinha uma avaria - todas as teclas FA, reproduziam um DO, e isto, coincidência ou não, sempre no mesmo tema. Logo o tema em que o João brilhava, o Whiter Shade os Pale. Parecia bruxedo.
A sorte é que o nosso vocalista, o Parreira, entendido em electrotécnica, reparava ali, no momento, os FAs do Pari. Era uma situação caricata, o baile parado, e o órgão desventrado.
Efectuada a reposição do FA, por ordens do João, o baile apenas prosseguia depois do Parreira explicar ao publico que aquilo tinha sido mesmo uma avaria, e não uma aselhice do teclista. E para o comprovar, o Soud Five nesses bailes tocava pelo menos umas 5 vezes o Whiter Shade of Pale, a pedido. Só para calar as más línguas e eventuais complexos musicais.
II
Para quem não sabe, um Lesley é um amplificador, que distribui o som através de umas cornetas rotativas (explicação muito simplória, mas que serve para o caso). 
Um dia antes de um bailarico, e antes do João chegar, abrimos o Lesley e enchemos as cornetas com pó de talco. Não consigo descrever a cara de pânico do João ao pensar que o Lesley estava a arder, e as nossas gargalhadas, e é claro que o resto do baile foi um pesadelo. O João amuara. E o palco ficou a cheirar a pão e pó de talco.
III
Era costume dos músicos levarem a namorada para o baile, que ficava ali virada para o palco a "controlar" o seu homem, não fosse alguma atrevida fazer-lhe olhinhos. 
Num desses episódios, começamos a ver a namorada a dar-lhe instruções, gesticulando "mais alto", e o João, vai ao botão de volume, sobe o som. Mas ela ali em baixo, continuava a sua mímica, e ele a subir o som. E assim foi subindo e subindo. De tal modo que só ouvíamos o Pari.
Depois é que ele percebeu, que ela se referia a ele se levantar um pouco do seu banco de pianista, pois aquele tamanho monstro do Pari, não a deixava vê-lo em plenitude. Ai o amor. Move até botões de volume...

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Iodo, o Alfeite e os "pretos"

A sala de espectáculos-mãe do Iodo foi o Centro Cultural do Alfeite. Tendo iniciado ali as nossas actuações publicas, quando adoptamos o nome "O Eléctrico", foi também ali que demos mais tarde dois concertos, um deles com o TóPê a solo na primeira parte.

Apesar de ser uma pequena sala, tinha um bom palco, e era muito frequentada por pessoal que nos adoptou desde o inicio, dando origem a uma pequena legião de entusiastas pelo nosso trabalho e nos seguia em muitos concertos. Mas mais importante ainda - foi deste bairro que saiu a quase totalidade dos nossos carregadores, aos quais, com humor, chamávamos de "pretos".
Copiando em muitos casos os modelos de bandas mais batidas, com os quais partilhávamos palcos, os nossos "pretos" depressa se tornaram excelentes profissionais, em tudo o que é exigido num concerto, desde o chegar cedo ao recinto, à disposição do material no palco, às (poucas) exigências dos músicos, e claro, à qualidade do som, desde que adquirimos o nosso primeiro P.A. e pudemos trabalhar o som à nossa vontade, pois depender dos equipamentos alheios, para além de custar dinheiro, tinha em algumas vezes custos de outra natureza. E bem pior.
Lembro-me que o meu"preto" o Luís, era perfeito, na colocação do meu material, regulações, afinação das guitarras, sem esquecer as Sagres por trás do Yamaha...
O cartaz de 27/12/1980






segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Encontros I

Conheci o espaço, Forno de Cima, no Pragal, ali bem pertinho do Cristo Rei, por convite da Tânia, uma pessoa extraordinária que fez parte do grupo Via Verde. A primeira vez que ali entrei deu-me a sensação de que aquele espaço parara no tempo, guardando recordações de melhores e gloriosos tempos, que se seguiram ao 25 de Abril. A decoração, a tijoleira, as capas dos discos de vinil que em tempos foram sucesso, eram testemunhos da época. Ali fui apresentado ao João Fernando e à Luísa Bastos, os fundadores da casa, e ali onde fiz algumas actuações, de boa memoria. 
Este video demonstra a ainda vitalidade e competência de um artista, que como tantos outros artistas de Portugal, criaram obra, sem que lhes coubesse o devido reconhecimento.
Nada foi combinado, nada foi ensaiado, e é assim que gosto na partilha da musica. Foi decidido ali, no momento, usar o backing-track do My Way, tal como fui apanhado desprevenido no momento de cantar, e desafinei descaradamente. Mas como se diz no meio , mais vale tocar ou cantar com imperfeição, do que sem emoção. E essa, está sempre presente.

domingo, 28 de outubro de 2018

Os empresários vintage


O modelo de empresário de conjunto musical, foi durante muitos anos um modelo diferente do conceito actual, cuja definição nos leva à pessoa que representa o artista ou a banda, e trata das contratações dos mesmos, cobrando as respectivas percentagens, tal como acontece no futebol.

Trabalhei durante muitos anos com inúmeros empresários que efectivamente arranjavam contratos, e como em tudo na vida existiam os bons e os maus. Existiam aqueles que para além de conseguirem contratos em locais de prestigio e classe, bem remunerados e garantindo boas condições de trabalho, tal como existiam aqueles que apenas visavam os seus lucros sem cuidarem minimamente dos direitos básicos dos contratados. Por isso, à conta dos empresários, tanto toquei nas melhores salas, nos melhores hotéis, recintos públicos, espaços privados, como toquei em zonas marginais, bairros sociais muito problemáticos, algumas vezes com perigo para a integridade física, minha e dos meus colegas.

Mas o empresário que aqui quero referir é o antigo. O castiço. Em voga nos anos 60 e 70. Aquele que tendo algum dinheiro, e no caso daqueles com quem trabalhei, um filho pertencente à banda. Eram os possuidores da sala de ensaios, da carrinha de transporte, e do equipamento musical, total ou parcial.
O primeiro que apanhei foi o Nobre, pai do Ramiro, no conjunto Sound Five. A sala de ensaios era um barracão ao fundo do quintal da casa do Nobre, o que implicava que a cada saída do grupo tivéssemos que passar com todo o material do barracão, pelo quintal, depois pelo interior da casa, até chegar à rua, e arrumar tudo  na carrinha, uma VW forma de pão azul. No regresso, o inverso...
O segundo empresário, no grupo Código, foi o Macedo, era pai do baixista, o Zé "patilhas", também dono da carrinha, da sala de ensaios, esta com melhores condições e fácil acesso, no Feijó. O Macedo era também dono de parte do material e também  chauffeur, nas longas jornadas de estrada. 
Este tipo de empresário era também vaidoso, permanecendo por vezes em cima do palco, durante as actuações, com aquele ar de, dono disto tudo.
As contas eram simples - se o grupo era de 5, dividia-se o cachet por 6. O empresário levava uma parte, fora o transporte, que era cobrado aparte. Dado que se tocava de 2 a 4 vezes por semana, e no caso do Código, que tocou do Minho ao Algarve, era um bom investimento. E nos casos que presenciei, um orgulho, ver o filho ali em cima do palco todo janota.

Aqui se vê o Macedo durante uma actuação, a tomar conta do pessoal

A Ford Transit, para além do material, e do condutor, levava 7 músicos e um colaborador





sábado, 27 de outubro de 2018

O inicio do Acústico, Restaurante Baía

A minha ultima banda de palcos foi o Via Verde. Fomos um quarteto divertido, que chegou a ser quinteto. O acumular de tantos anos em palcos, as noites não dormidas, e a falta de qualidade dos temas que tínhamos de tocar ditaram a minha decisão de mudar de rumo.
Com efeito, na medida em que os anos passaram, o tipo de repertório que era exigido nos bailes, passou de bom, nos anos 70 e 80, para mau e péssimo dos anos 90 para a frente. Valiam-nos alguns momentos de desbunda là para o final dos bailes com uns temperos de rock.
O ultimo baile que fiz foi na passagem de ano de 2006 para 2007, em Mem Martins.

Desde 2003 que comecei a frequentar o restaurante Baìa, no Seixal. Em algumas quintas-feiras haviam fados fora do conceito tradicional, os músicos, um deles irmão da Dulce Pontes, com uma execução suprema, e sempre 3 a 4 fadistas, entre os quais, um desconhecido na época, de nome António Zambujo. 
No Baía descobri também a mestria do Vítor Paulo, tanto no canto como na guitarra. E foi este modelo de espectáculo que me seduziu, e me fez propor à Sara, a gerente da casa, tocar nas quartas a sábados.
O Baía tinha o ambiente prefeito para musica ao vivo, no estilo soft, durante a refeição e bem animado para o final da noite. A clientela era selecta, de bom gosto, gastronómico e musical. Iam para comer e ficar, e não simplesmente comer. A decoração e iluminação era acolhedora. Aconteceram ali inesquecíveis e irrepetíveis momentos musicais. 
Com o tempo fui aperfeiçoando a execução em guitarra acústica, e melhorando o canto, construindo um repertório que tinha a ver com as minhas preferências. 
Foi no Baía, que ousei começar a tocar Chico Buarque, Caetano Veloso, Sérgio Godinho, Nat King Cole, e tantos outros.
Por ali reencontrei o Fernando Emanuel, teclista do Código, e à data Maestro de orquestra, em Haia, e também o António Manuel Ribeiro, que ainda cantou o Sozinho do Caetano Veloso. 

Contudo, o Baía fechou, vindo a abrir mais tarde com nova gerência.  Foi por essa altura que comecei a tocar no Taberna do Sousa, também no Seixal.

No aniversário da Sara.

Com a minha Fender DG-20CE, a primeira guitarra que trouxe para actuar no Luxemburgo

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Iodo, e o PCP

A relação do Iodo com partidos políticos, resumiu-se ao PCP. Talvez porque estávamos na Margem Sul, pois na verdade não tínhamos nenhuma bandeira partidária, nem me lembro de debatermos sequer uma vez o assunto. Contratavam-nos para tocar, e era isso que nos interessava: tocar. Chegamos a fazer uma meia dúzia de concertos para este partido, alguns com o nítido aproveitamento do nosso PA para os discursos, mas também, porque tendo o Iodo, algum protagonismo, sempre chamávamos algum pessoal aos recintos. Primeiro a malta ouvia a cassete, e depois, o concerto.

O convite para a Festa do Avante, surgiu nos mesmos moldes do convite para tocarmos na primeira parte do Iggy Pop - de borla. Os argumentos, também os mesmos, a promoção, a divulgação, etc.
Aceitamos, mesmo tendo recusado para essa data, 6 de Setembro de 1981, um contrato remunerado.

No acerto dos detalhes, as negociações estiveram tremidas, apesar de já estarmos anunciados no programa oficial, porque a organização exigia que todos, elementos da banda e staff pagássemos a entrada, e teria de ser na forma de EP, o bilhete dos 3 dias da festa. Diziam-nos ser uma forma de ajudarmos a pagar a nossa promoção. Perante a nossa recusa, as altas instâncias decidiram, não nos cobrar entradas, para irmos tocar... de borla.

Tocamos no palco 2, à mesma hora em que no palco 1, tocavam os Dexys Midnight Runners. Para nossa satisfação, o recinto estava apinhado de gente, o publico delirou, e dali saímos a correr para petiscar alguma coisa fora da festa, é que após os testes de som, que tinham de ser feitos antes do discurso do secretário geral, pensamos em ir comer alguma coisa antes do concerto (a pagar, claro) mas para nosso espanto não se servia comida nem bebida, no período de discurso. 
Toma, que é democrático.

Iodo, na Wikipédia

A presença do Ido na Wikipédia.
Somos um pequeno ponto deste Universo, mas estamos  lá, fazemos parte da Historia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Parcerias, o Jorge Loução

Conheci o Jorge Loução no Liceu de Almada, quando lhe chamavam Sandokan, dadas as parecenças com este personagem televisivo. Anonimamente fazia parte do grupo daqueles que se juntavam em torno dos que levavam uma viola acústica para o Liceu,e  tocavam para essa plateia.
Era uma forma de aprendizagem que cultivava em silêncio, a de observar aqueles que mostrando os seus dotes artísticos, sem o saberem me estavam a dar aulas de guitarra. Era por vezes complicado, pois memorizava os acordes, sem nunca os descrever para o papel, e chegado a casa, tentava reproduzir o que antes observara. Foi dessa forma que observei o Loução, o Doro, e o Juca, ao qual "roubei" a belíssima introdução e os acordes do tema "Michelle", dos Beatles.

Dos momentos em que me cruzei com o Loução lembro-me que me desloquei com alguns colegas a Azeitão, à sala de ensaios do Turma 73 e lá estava ele fazendo parte da banda. Também mais tarde, no concerto que aconteceu na Incrível Almadense, com o Rock & Varius, os Iodo e os UHF, em 30 de Outubro de 1980.

Os verdadeiros bons momentos juntos foram passados já na idade madura, quando ambos já desenvolvíamos a actividade de músicos a solo. Sempre admirara a a forma de abordagem do Loução, principalmente aos temas do Cat Stevens e Otis Redding.
Tocar com, e ao lado dele, foi ao mesmo tempo uma espécie de retorno aos momentos de vinil, com o prazer de actuar quase de forma jam, porque quando os músicos se encontram e a bagagem é vasta, não faltam argumentos.

Tocar, como aconteceu, para colegas de escola, da mesma geração, foi a cereja no topo do bolo, pois é como um daqueles concertos em que todos cantam as letras das canções. Assim foi, num dos encontros de antigos alunos do Liceu Nacional de Almada, no Pragal.




terça-feira, 23 de outubro de 2018

Iodo, a primeira ida a estúdio

Manuel Cardoso
A nossa primeira ida a estúdio foi uma consequência do filão deixado aberto pelo êxito do LP do Rui Veloso, "Ar de Rock". As editoras queriam bandas do recentemente proclamado no inicio da década de 80, Rock Português, e eis que fomos pescados no Rock Rendez-Vous, pelo Manuel Cardoso, para assinar contrato com a editora discográfica Vadeca.
Tudo volátil e de aparência fácil. Não sendo o Iodo uma banda que se aproveitou do boom do Rock Português, dado que já existia antes do Ar de Rock, é claro que o Iodo aproveitou a boleia. E assim fomos alegres e excitados às gravações.
O estúdio, em Lisboa, de nome Angel Studio, recebeu-nos durante duas sessões, que custaram à editora 16 contos à hora, e por isso foi tudo a despachar, sem espaço para erros ou alterações de ultima hora.
Tratou-se de tocar praticamente como ao vivo, quatro temas, para que depois se escolhessem dois, que dariam origem ao nosso primeiro single. E cumprimos bem a missão, deixando o nosso "ovo" nas mãos do experiente técnico José Fortes, que quanto a mim, soube cuidar muito bem do som captado. Aquele som que se ouve nas gravações, é de facto o nosso som, era o som no palco. Sem mariquices, sem enfeites.
Pouco tempo depois o single com os temas "Malta à Porta" e "Aqueles Dias", sai para a rua e é profusamente divulgado nas principais rádios e até na tv, chegando mesmo aos tops do TNT e Rock em Stock, onde atingiu o primeiro lugar.
Da experiência em estúdio, resumo que se não estivéssemos tão à vontade com os temas, e se tivéssemos tido o azar de nos calhar um técnico menos profissional, teria sido um desastre. 
Quanto aos outros dois temas gravados, "A Canção" e "Pedro e o Lobo" foram, na tentativa de boleia do primeiro single, postos à venda num segundo single do Iodo, com o detalhe de que fomos os últimos a saber. 
Reclamamos ao Sr. Viana da Vadeca, mas sem sucesso. Esqueceramos de ler as letras pequenas do contrato. E subitamente demo-nos conta de que não éramos donos do nosso destino.





segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Guitarras, a Eko

A primeira guitarra eléctrica que tive foi uma Eko, comprada ao Antonio "Careca", também o primeiro grande professor que tive, que me deu suficientes aulas teóricas e praticas para que eu desemburrasse daquela fatídica trilogia de acordes de La Mi Ré. O "Careca" para além de exigente e bom musico, tinha bom gosto, ensinava através de bons temas, muitos dos Creedence Clearwater Revival, que faziam furor à época. As coisas começaram a complicar quando ele aparece com uma execução a rigor do tema "Desafinado" e pretende que o aluno o acompanhe. Se ainda hoje não domino em pleno esta musica se a canto e toco ao mesmo tempo, naquele tempo, nem pensar. Era uma desgraça.
A Eko que custou 1.900$00, deu-me passaporte para poder estudar e copiar solos. A malta queria era solar, vir escala acima tirar notas agudas, e sentir aquele braço mais macio que os braços das acústicas . Um sonho. O sonho do adolescente que acorda a pensar em guitarras, e adormece com o gira-discos ligado.
Mas, depressa me passou a febre da Eko, assim que provei o sabor de outras guitarras como a Burns, ou a Hofner que o "Careca" comprara quando se viu livre da Eko. De princesa, a Eko passou a gata borralheira. Apenas me soava a agudos, com aqueles registos todos parecidos, e uma afinação difícil de obter, para não falar daquele corpo de bacalhau, nada confortável, contrastando com as curvas acolhedoras das outras guitarras. Foi talvez aqui que começou a minha analogia "guitarra-mulher".
Mais tarde em pesquisas que fiz, descobri que estas guitarras sofreram uma espécie de mutação de acordeão para guitarra, dadas as novas tendências do mercado americano que, com a descoberta do rock & roll, passou a a consumir guitarras em vez do acordeão. Por isso o corpo das guitarras em madre-pérola, e os botões dos registos "à acordeão" para não falar da fraca qualidade das madeiras.
Contudo as Eko fizeram Historia, e serviram de ferramenta a muita gente da minha geração. Foi a minha guitarra nas bandas Pontificado, Renovação e Psicose. Ligada ao meu primeiro pedal de Fuzz, Elka, rebentava com os tímpanos mais sensíveis, quando se tocava o Easy Living.
Desfiz-me dela quando comprei a Ibanez, cópia da Les Paul, na Custodio Cardoso. Começavam os anos 70, e a palete de sonhos e projectos era toda minha.

Iodo, o TóPê imprevisível

 O TóPê é sem duvida a pessoa com quem toquei que desencadeou mais sentimentos mistos. Podia ao mesmo tempo admirar o talento do TóPê, mas achar o comportamento instável e desconcertante, como ver nele a pessoa mais anti-sistema, que vivia num mundo paralelo de onde apenas saía se na sua cabeça entrasse uma justificação e não uma obrigação.
Irreverente e imprevisível ao ponto de ir para o palco de ceroulas, ou a meio do concerto começar a bater violentamente com a viola no chão do palco.
Desconcertante quando esperamos por ele mais de uma hora, e ele fechado no quarto do hotel. Pedimos uma segunda chave a pensar no pior, e damos com ele na sanita a dizer calmamente: sua excelência está a sair. E depois puxa o autoclismo...
Perigoso quando numa viajem Lisboa-Porto, no comboio a uns 100 à hora,  damos com ele com a porta da carruagem aberta, a repetir: mando-me ou fico, mando-me ou fico...
Imprevisível quando, em vez de subir ao palco em pleno Rossio, desata a correr, e só o apanharam no final dos Restaurares...


Mas igualmente génio, quando tocava naquele baixo sem trastes, com uma precisão impressionante, criando melodias de beleza rara (que nunca registamos) ou me tirava acordes à primeira com a maior das facilidades, ou compunha temas como o Aqueles Dias, e nos dava de presente, pois estou convicto que o melhor do TóPê criativo, era guardado no casulo TóPê, o tal outro mundo paralelo onde ele morava.
Como militante por convicção do anti-sistema, creio que ao TóPê nunca lhe agradou o modelo temático da banda, e mesmo a opção de fazermos bailes no inicio do Iodo, embora o nome adoptado para esse fim tivesse sido escolhido por ele.
Com os compromissos a avolumarem-se foi-se tornando cada vez mais difícil "ter" o TóPê na banda. Alguns constrangimentos nos comportamentos que variavam, nos palcos, nos ensaios, nas idas à imprensa, à rádio e mesmo à tv obrigaram-nos a procurar um substituto.
Creio que ele ficou aliviado com a decisão.

Dele guardo, o caderno de apontamentos, uma espécie de diário onde escrevia aparentemente sem nexo, esboços, diagramas, frases soltas, charadas e alguns desenhos.

Voltando ao único tema da sua autoria registado nos discos do Iodo, não esqueço o dia em que o Madeira lhe pergunta:
- TóPê, porque é que a letra do Aqueles Dias, acaba a repetir tudo isto com atum, tudo isto com atum, tudo isto com atum...
Responde o TóPê com a sua calma serenidade:
- Porque quando estava a escrever a letra, estava a comer atum!
Não deixa de ter lógica.



Luxemburgo

As palavras da soberba composição do Sérgio Godinho "O Primeiro Dia": hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, sempre me incomodaram. Sabermos que vamos saber como será o dia de amanhã, e  o de depois de amanhã e por aí fora, deve ser terrível, é como uma condenação à inércia de nos contentarmos com o passado, que por mais valioso que seja... já passou. Temos sempre a obrigação de evoluir, e procurar nessa evolução o que nos faz sentir bem, realizados e nos auto-valoriza.
Neste blog, muito contarei do passado, porque nesse passado está a minha vida musical, mas conto por aqui deixar momentos do meu presente. 
Este presente, vivido agora em outras terras, tem sido repleto de palcos, parcerias e interacção. Tudo inesperado. Nada premeditado. Das memorias fotográficas que aqui deixo por agora, guardarei espaço para futuros relatos.

Gino's - clube de Jazz e Blues, Esch-sur-Alzette, Luxemburgo

Brasserie K116, Esch-sur-Alzette, Luxemburgo

Chateau du Bois, Arlon, Bélgica

Instituto Camões, com Pedro Quintas, cidade de Luxemburgo

Chiado Luxembourg, com Pedro Bray, Belvaux, Luxemburgo

Place de l'Hotel de Ville, com Carlos Santos, Esch-sur-Alzette, Luxemburgo

Caves Bernard-Massard, com Maurizio Spiridigliozzi, Grevenmacher, Luxemburgo


Syrkus, com Pedro Quintas e Raquel Barreira, Roodt-sur-Syre, Luxemburgo

Com Pedro Quintas, Raquel Barreira, e grupos tradicionais, os russos Ural Kosaken e os chilenos Los Latinos, Junglinster, Luxemburgo

Com o Grupo Cantares da Região de Lafões, Radio Latina, cidade de Luxemburgo 

Residência oficial do Primeiro Ministro, com o Grupo Cantares de Lafões, cidade de Luxemburgo 

Com o Embaixador de Portugal, e Pedro Quintas, Instituto Camões, cidade de Luxemburgo


O Selim


Na minha formação musical tive variados professores, desde o cantar das avós, a aulas de musica, mas na realidade foi na pratica e no terreno que mais desenvolvi a aprendizagem, o método, que muitas vezes a irreverência e tendência de fugir ao estabelecido me tentavam a sair fora dos parâmetros, o que me valia tanto o elogio como a reprimenda.
Tocar com músicos com muita experiência e muita qualidade é para mim, uma das melhores formas de evoluir, e por isso não podia deixar de registar aqui o local que foi palco de muitas noites e uma grande "escola" no sentido mais abrangente da palavra : a boite, O Selim, no Casal do Marco.

O Selim foi uma afamada casa de alterne na Margem Sul. Como o nome indica tinha todos os requisitos necessários de aptidão. As luzes vermelhas, os neons, as meninas, as strip-teasers, as variedades, e uma orquestra geralmente composta por cinco músicos.
O convite surgiu porque a orquestra precisava de alguém para substituir os músicos nas suas folgas, ou outros compromissos, pelo que fui sujeito a uma espécie de teste de aptidão sem rede. E correu bem, o teste não foi fácil, tratava-se de acompanhar um italiano de nome Sandro Core, que para além de cantar temas italianos de sucesso, muito em voga na altura, cantava em espanhol, musicas complicadas, como o Granada ou o México. Para dificultar ainda mais, o Sandro tinha uma companheira de nome Arianne, francesa que também cantava. Foi no palco que conheci o intemporal Rien de Rien. A toca-lo.
A ajuda do teclista na descomplicação das cifras nas partituras, foi fundamental, e uma grande ajuda, dado que muitos acordes eram compostos, e até ali, meus ilustres desconhecidos. Quando apareciam aqueles Do 7/13b, o Deniz aliviava-me o pânico, mostrando-me uma meia dúzia de acordes similares simplificados, que não desvirtuavam o resultado final.

A turma musical era toda composta por pesos-pesados : nas teclas e flauta, o Deniz, na bateria o "Gingalhinhas", na guitarra, o Nelo, guitarrista na orquestra da EN, no baixo o irmão do Nelo, o Lúcio, e no saxofone tenor o Laureano, musico dos programas da RTP, ZipZip e Cornélia.

Não podia estar em melhor ambiente para evoluir do que entre este pessoal. No entanto, nem tudo eram rosas, houve que arranjar documentação falsa da minha identidade, pois eu era menor de idade, e havia que respeitar a lei, se bem que sabemos que uma casa deste tipo tem os seus argumentos para seduzir uma inspecção. Também não era fácil conciliar este trabalho nocturno com os estudos. O Selim trabalhava até às 4 da manhã, e às 8 tinha de arrancar para as aulas no Liceu, em Almada. E depois haviam sempre os ensaios, com os artistas, e com as streapers, mas essas escolhiam quase sempre os mesmos temas para actuar: Je t'aime, Emanuelle e l'été Indian.

Por aqui virei, a seu tempo relatar episódios vários passados no Selim. Por agora fico-me pelo reconhecimento de apreço, aos músicos que tanto me ensinaram, num local onde toquei guitarra, baixo, e até teclas, num quarteto que fazia as soirées de domingo, com os irmãos Andrade, e o Luís Rosado, três elementos fundadores daquela que seria mais tarde o Grupo de Baile.

A guitarra do Nelo, uma Burns, na qual eu estava autorizado a tocar. Foi a segunda grande guitarra que toquei.

O EP do Deniz, com quatro temas originais.

Disco do Sandro com arranjos do Shegundo Galarza





sábado, 20 de outubro de 2018

Soud Five


Sem sabermos o que isso era, o Sound Five era como uma boys-band  local, se as houvessem nos anos 70. Não começamos a tocar juntos nesta formação. O quarteto nuclear (na primeira foto) começou num grupo chamado Psicose. Para além destes 4, havia o Salgadinho nas teclas, individuo que mais tarde viria a abusar da minha confiança, e o Hélio, no saxofone, já falecido.
Não recordo em rigor, os motivos do reagrupamento do Sound Five. Lembro-me que para além de uma banda de referência, por ali passaram músicos com os quais mais tarde viria a tocar o Amândio (guitarrista),  o Alexandre (vocalista).
Neste reagrupamento, encontrei de inicio um cantor que tinha dezenas da cantigas escritas por ele, algumas com uma qualidade razoável, que faziam parte do repertório, uma delas chamava-se "miúda tu não vais à escola". 
Quando o nosso quinteto ganha forma com o Valente nas teclas começamos a tocar essencialmente musicas cantadas em inglês e a dar os primeiros passos na inclusão do rock nas nossas actuações. Destaco o "easy living" dos Uriah Heep, e uma desbunda chamada "cavalgada" inspirada no solo de guitarra do "child in time" dos Deep Purple.
De resto havia bom gosto na escolha dos temas que apresentávamos em palco, e por isso reafirmo o que venho a dizer há décadas: a qualidade dos grupos de baile regrediu, desde os anos 90 que apenas o que é merdice pimba é tocado nas festas, bailaricos e romarias.
Para exemplo, deixo aqui alguns dos temas que tocávamos, e o pessoal tinha o privilegio de ouvir:
Nights in white satin, July morning, whiter shade of pale, Atlantis, black magic woman, oye como va, smoke on the water, feelings, have you ever seen the rain, and so on...

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Código, banda de acompanhantes


Ter ido para o Código foi uma enorme honra, e ao mesmo tempo uma grande responsabilidade. Muito tenho para contar, das varias formações, que travessaram décadas, desta banda, mas neste post apenas que salientar que na época, muitos artistas se serviam dos serviços das bandas que tinham competência para os acompanhar, nos seu espectáculos. E o Código tinha essa competência. Tudo era a rigor, pois existiam partituras para respeitar, e o nosso teclista na época, o Fernando Emanuel, um promissor estudante de piano, hoje Maestro, assim o exigia. Pela sala de ensaios, no Feijó,  passaram uma grande quantidade de artistas famosos.

Nestas fotos temos um pouco cortado à direita da primeira foto, o Artur Garcia, e na foto de baixo, uma menina debutante de nome Fernanda de Sousa, hoje, a Ágata.

O local: Hotel das Arribas, Arribas do Mar, Sintra
A banda presente nestas fotos:
Eduardo Beirão, vocalista
João Mário, saxofone tenor
Dias, trompete
Alcobia, bateria
Zé Tó, baixo
Fernando Emanuel, teclas
Eu, guitarra


Iodo - O orgão a arder


Existia na sala de ensaios do Iodo, um orgão Diamond de dois teclados,  que o Luís não usava. O seu ARP, vindo dos Estados Unidos, e o sintetizador Roland monofonico, constituíam na fase de arranque  o  set de teclados que deu corpo ao som distinto da banda. Pelo que tomei de empréstimo o Diamond, e levei-o para casa onde dava umas pianadas de vez em quando.
Após o Iodo formalizar o seu contrato com a editora discográfica, tornou-se necessário trabalhar na produção da nossa imagem, que consistia entre outras manobras tirar umas fotos. Creio que deve ter havido debate, e uma vez que a escolha do nome "Iodo" tinha a ver com o mar (quando cheguei ao grupo, o nome já existia) decidiu-se fazer fotos dentro de água... na Costa da Caparica. O objectivo era a presença do elemento mar, e alguma irreverência a demonstrar pela atitude de cada elemento. Por outras palavras, cada um dos músicos criaria o seu "boneco".
O Luís escolheu levar o Diamond , e a dado momento da sessão fotográfica, eu não queria acreditar: o Luis espeta com o orgão dentro de água. E ali se finou para sempre um excelente instrumento.
A partir dessa data, o Diamond fez parte da encenação dos nossos concertos, pois no final, regavam-se as teclas com álcool e o publico delirava com aquele efeito visual.
Adorou até um dia. O dia em que em Porto de Mós o pobre Diamond cansado de arder aos bocados, não se deixou apagar. O resultado foi um quase intoxicação no palco, e no publico das primeiras filas, e a carcaça carbonizada do Diamond jogada de emergência para a rua por uma providencial porta traseira do palco. E o concerto acabou ali.
Assim terminou o assunto das teclas em chamas. Não tínhamos mais figurantes teclados para atear.