quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A feijoada

O Código actuava com regularidade na região de Abrantes, E um dos locais que mais nos chamou, Atalaia da Barquinha, era onde mais gostávamos de tocar, dada a afectividade de quem nos contratava, bem como da resposta do publico. Tínhamos ali naquela pequena localidade uma grande recepção, que não fugiu à regra, no dia em que chegamos para tocar, e horas antes tinha falecido alguém lá  na terra. Ainda telefonaram, mas naquele tempo, não haviam telemóveis...

A proposta foi simples: o baile estava cancelado, pagavam-nos a deslocação, e contratavam-nos para uns quantos bailes, nos meses seguintes. E mais, dado que tínhamos feito aqueles quilómetros todos, não iríamos de barriga vazia, não senhor. Foi-nos preparada uma enorme feijoada, para nos deliciarmos. 
A decisão foi unânime, aceitamos. E comemos e comemos, e bebemos, e bebemos, e bebemos. Tudo mais do  que a conta. Não era todos os dias que podíamos comer e beber sem a pressão do horário e da lucidez conveniente para garantir a actuação.

No regresso, daquela noite não tocada, e bem regada, de frio outonal, passado um bom bocado, um elemento do grupo é acometido por enorme dor de barriga, e aflito, pede ao Macedo para encostar a carrinha. Era urgente, notava-se pelo ar de suplica. A carrinha encosta à beira de um imenso pomar, estava escuro como breu e o nosso aflito colega desaparece entre as silenciosas macieiras.
Em menos de trinta segundos, ouvem-se dois tiros, e vemos o nosso musico a correr direito à carrinha ainda a puxar as calças para cima, e aos gritos.

Deduzimos todos que, depois da carrinha arrancar à velocidade possível, alguém estaria de guarda ao pomar, e com os tiros assim afugentava os possíveis larápios. E ao ouvir um motor a parar no meio da noite: pum, pum!!

O problema.... foi o cheiro que emanava do nosso colega. 

Ficou ali provado que se consegue viajar mais de cem quilómetros em noite fria, com  as janelas da carrinha aberta, e que também se trava uma caganeira à lei da bala.



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