quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Raul Alcobia


Foi seguramente a pessoa mais importante das minhas vivências musicais. Uma cumplicidade que começou pela amizade de vizinhos de rua, pois morávamos na EN10, no Casal do Marco, mesmo em frente um do outro,e praticamente começamos juntos na descoberta deste bichinho que é a musica. O começo foi aquele começo afinal tão comum - as bandas de garagem. Se bem que não era bem garagem, mas uma espécie de arrecadação, onde se tentava fazer musica. O Humberto e eu com duas violas acústicas de péssima qualidade e o Alcobia com uma geringonça, formada por alguidares plásticos e baldes de Skip, que na época eram de forma cilíndrica e de papelão. Ali começaria uma união que sem haver acordo, funcionou durante anos: quando um fosse para uma banda, trataria de levar o outro, mais cedo ou mais tarde. Na prática, eu e o Alcobia não estávamos bem se não estivéssemos a tocar juntos. 
E assim, tivemos a nossa primeira formação "a sério", com o Vasco, na guitarra-ritmo e voz, e o Baptista no baixo. Ensaiávamos no Clube Desportivo de Paio Pires, com material "caseiro" entre os quais um amplificador construído pelo Parreira que apenas funcionava na posição vertical, pelo que tinha de ser pendurado na parede. A nossa primeira saída foi na Barra Cheia, Coina, e tivemos problemas com a Direcção porque pregamos um prego na parede e outros pregos no palco para aguentar a bateria...
O Pontificado pouco durou, a nossa dupla dava nas vistas e não mais paramos. Corremos o Soud Five, Renovação, Psicose, Assistole, Exemplo, Código, Tema 5, Iodo, Sons da Baía, outras formações que não lembro, bem como algumas participações em actividades cénicas, e maquetas em estúdios.
A nossa cumplicidade era muito mais do que a dos palcos, existia quase uma disciplina que levávamos muito a sério, a audição dos álbuns, ou LPs, era sempre obrigatória quando aparecia uma novidade comprada com os trocos economizados.
Fomos amigos, parceiros, confidentes, padrinhos de casamento um do outro, e quem nos via tocar entendia a nossa linguagem em palco. Bastava aquela mudança num solo de guitarra para que ele fizesse o break na bateria. Tudo estava em sintonia, que ultrapassou muito mais do que o mundo da musica.
Depois crescemos, e crescemos, e cada um mudou. A magia foi-se perdendo. As escolhas e os rumos foram criando um rio cada vez maior.
Deixamos de tocar juntos pelo ano de 1999.


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