O TóPê é sem duvida a pessoa com quem toquei que desencadeou mais sentimentos mistos. Podia ao mesmo tempo admirar o talento do TóPê, mas achar o comportamento instável e desconcertante, como ver nele a pessoa mais anti-sistema, que vivia num mundo paralelo de onde apenas saía se na sua cabeça entrasse uma justificação e não uma obrigação.
Irreverente e imprevisível ao ponto de ir para o palco de ceroulas, ou a meio do concerto começar a bater violentamente com a viola no chão do palco.
Desconcertante quando esperamos por ele mais de uma hora, e ele fechado no quarto do hotel. Pedimos uma segunda chave a pensar no pior, e damos com ele na sanita a dizer calmamente: sua excelência está a sair. E depois puxa o autoclismo...
Perigoso quando numa viajem Lisboa-Porto, no comboio a uns 100 à hora, damos com ele com a porta da carruagem aberta, a repetir: mando-me ou fico, mando-me ou fico...
Imprevisível quando, em vez de subir ao palco em pleno Rossio, desata a correr, e só o apanharam no final dos Restaurares...

Mas igualmente génio, quando tocava naquele baixo sem trastes, com uma precisão impressionante, criando melodias de beleza rara (que nunca registamos) ou me tirava acordes à primeira com a maior das facilidades, ou compunha temas como o Aqueles Dias, e nos dava de presente, pois estou convicto que o melhor do TóPê criativo, era guardado no casulo TóPê, o tal outro mundo paralelo onde ele morava.
Como militante por convicção do anti-sistema, creio que ao TóPê nunca lhe agradou o modelo temático da banda, e mesmo a opção de fazermos bailes no inicio do Iodo, embora o nome adoptado para esse fim tivesse sido escolhido por ele.
Com os compromissos a avolumarem-se foi-se tornando cada vez mais difícil "ter" o TóPê na banda. Alguns constrangimentos nos comportamentos que variavam, nos palcos, nos ensaios, nas idas à imprensa, à rádio e mesmo à tv obrigaram-nos a procurar um substituto.
Creio que ele ficou aliviado com a decisão.
Dele guardo, o caderno de apontamentos, uma espécie de diário onde escrevia aparentemente sem nexo, esboços, diagramas, frases soltas, charadas e alguns desenhos.
Voltando ao único tema da sua autoria registado nos discos do Iodo, não esqueço o dia em que o Madeira lhe pergunta:
- TóPê, porque é que a letra do Aqueles Dias, acaba a repetir tudo isto com atum, tudo isto com atum, tudo isto com atum...
Responde o TóPê com a sua calma serenidade:
- Porque quando estava a escrever a letra, estava a comer atum!
Não deixa de ter lógica.
Voltando ao único tema da sua autoria registado nos discos do Iodo, não esqueço o dia em que o Madeira lhe pergunta:
- TóPê, porque é que a letra do Aqueles Dias, acaba a repetir tudo isto com atum, tudo isto com atum, tudo isto com atum...
Responde o TóPê com a sua calma serenidade:
- Porque quando estava a escrever a letra, estava a comer atum!
Não deixa de ter lógica.


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