Na minha formação musical tive variados professores, desde o cantar das avós, a aulas de musica, mas na
realidade foi na pratica e no terreno que mais desenvolvi a aprendizagem, o método, que muitas vezes a irreverência e tendência de
fugir ao estabelecido me tentavam a sair fora dos parâmetros, o que
me valia tanto o elogio como a reprimenda.
Tocar com músicos com muita experiência
e muita qualidade é para mim, uma das melhores formas de evoluir, e
por isso não podia deixar de registar aqui o local que foi palco de
muitas noites e uma grande "escola" no sentido mais
abrangente da palavra : a boite, O Selim, no Casal do Marco.
O Selim foi uma afamada casa de alterne
na Margem Sul. Como o nome indica tinha todos os requisitos necessários de aptidão. As luzes vermelhas, os neons, as meninas, as
strip-teasers, as variedades, e uma orquestra geralmente composta por
cinco músicos.
O convite surgiu porque a orquestra precisava de alguém para substituir os músicos nas suas folgas, ou outros
compromissos, pelo que fui sujeito a uma espécie de teste de aptidão sem rede. E correu bem, o teste não foi fácil, tratava-se de acompanhar um
italiano de nome Sandro Core, que para além de cantar temas italianos de
sucesso, muito em voga na altura, cantava em espanhol,
musicas complicadas, como o Granada ou o México. Para dificultar ainda mais, o
Sandro tinha uma companheira de nome Arianne, francesa que também
cantava. Foi no palco que conheci o intemporal Rien de Rien. A toca-lo.
A ajuda do teclista na descomplicação
das cifras nas partituras, foi fundamental, e uma grande ajuda, dado
que muitos acordes eram compostos, e até ali, meus ilustres
desconhecidos. Quando apareciam aqueles Do 7/13b, o Deniz aliviava-me
o pânico, mostrando-me uma meia dúzia de acordes similares simplificados, que não desvirtuavam o resultado final.
A turma musical era toda composta por pesos-pesados : nas teclas e flauta, o Deniz, na bateria o "Gingalhinhas", na guitarra, o Nelo, guitarrista na orquestra da EN, no
baixo o irmão do Nelo, o Lúcio, e no saxofone tenor o
Laureano, musico dos programas da RTP, ZipZip e Cornélia.
Não podia estar em melhor ambiente para
evoluir do que entre este pessoal. No entanto, nem tudo eram rosas, houve que
arranjar documentação falsa da minha identidade, pois eu era menor
de idade, e havia que respeitar a lei, se bem que sabemos que uma
casa deste tipo tem os seus argumentos para seduzir uma inspecção.
Também não era fácil conciliar este trabalho nocturno com os estudos.
O Selim trabalhava até às 4 da manhã, e às 8 tinha de arrancar para as aulas no
Liceu, em Almada. E depois haviam sempre os ensaios, com os artistas, e com as streapers, mas essas escolhiam quase sempre os mesmos temas para actuar: Je t'aime, Emanuelle e l'été Indian.
Por aqui virei, a seu tempo relatar episódios vários passados no Selim. Por agora fico-me pelo reconhecimento de apreço, aos músicos que tanto me ensinaram, num local onde toquei guitarra, baixo, e até teclas, num quarteto que fazia as soirées de domingo, com os irmãos Andrade, e o Luís Rosado, três elementos fundadores daquela que seria mais tarde o Grupo de Baile.
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| A guitarra do Nelo, uma Burns, na qual eu estava autorizado a tocar. Foi a segunda grande guitarra que toquei. |
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| O EP do Deniz, com quatro temas originais. |
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| Disco do Sandro com arranjos do Shegundo Galarza |



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