segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Guitarras, a Eko

A primeira guitarra eléctrica que tive foi uma Eko, comprada ao Antonio "Careca", também o primeiro grande professor que tive, que me deu suficientes aulas teóricas e praticas para que eu desemburrasse daquela fatídica trilogia de acordes de La Mi Ré. O "Careca" para além de exigente e bom musico, tinha bom gosto, ensinava através de bons temas, muitos dos Creedence Clearwater Revival, que faziam furor à época. As coisas começaram a complicar quando ele aparece com uma execução a rigor do tema "Desafinado" e pretende que o aluno o acompanhe. Se ainda hoje não domino em pleno esta musica se a canto e toco ao mesmo tempo, naquele tempo, nem pensar. Era uma desgraça.
A Eko que custou 1.900$00, deu-me passaporte para poder estudar e copiar solos. A malta queria era solar, vir escala acima tirar notas agudas, e sentir aquele braço mais macio que os braços das acústicas . Um sonho. O sonho do adolescente que acorda a pensar em guitarras, e adormece com o gira-discos ligado.
Mas, depressa me passou a febre da Eko, assim que provei o sabor de outras guitarras como a Burns, ou a Hofner que o "Careca" comprara quando se viu livre da Eko. De princesa, a Eko passou a gata borralheira. Apenas me soava a agudos, com aqueles registos todos parecidos, e uma afinação difícil de obter, para não falar daquele corpo de bacalhau, nada confortável, contrastando com as curvas acolhedoras das outras guitarras. Foi talvez aqui que começou a minha analogia "guitarra-mulher".
Mais tarde em pesquisas que fiz, descobri que estas guitarras sofreram uma espécie de mutação de acordeão para guitarra, dadas as novas tendências do mercado americano que, com a descoberta do rock & roll, passou a a consumir guitarras em vez do acordeão. Por isso o corpo das guitarras em madre-pérola, e os botões dos registos "à acordeão" para não falar da fraca qualidade das madeiras.
Contudo as Eko fizeram Historia, e serviram de ferramenta a muita gente da minha geração. Foi a minha guitarra nas bandas Pontificado, Renovação e Psicose. Ligada ao meu primeiro pedal de Fuzz, Elka, rebentava com os tímpanos mais sensíveis, quando se tocava o Easy Living.
Desfiz-me dela quando comprei a Ibanez, cópia da Les Paul, na Custodio Cardoso. Começavam os anos 70, e a palete de sonhos e projectos era toda minha.

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